21 março, 2015

O bilhete do João-gordão.








Um grande
caroço de feijão.

          Uma vez criei coragem e fiz-lhe a seguinte pergunta: João! Alguém já lhe disse que você parece com um gordo caroço de feijão? Rs.
     Já se somam aí, quase quatro meses que venho ininterruptamente parando todos os dias úteis da semana na barraca do João-gordão. Ele vende coco gelado... Trata-se de um sujeito idoso, baixo, gordo, careca, barrigudo e moreno; que ao olhar direto pra ele a primeira impressão que se tem é de puro riso; pois ele não se parece com nada, a não ser com um feijão. Rs. Isso mesmo! Com um inchado caroço de feijão. Rs.
         Lá eu tenho dado um tempinho, logo após termino a minha prática de educação física. Faço isso na satisfatória busca, de três objetivos pricipais:
1- Descansar
2- Reidratar e,
3- Ouvir sempre umas boas conversas fiadas. Rs.

        Confesso que às vezes não tenho vontade alguma de ir correr, to de ressaca, meu corpo pede um repouso a mais, mas quando me lembro daquela barraca e das figuras que por lá aparecem ganho forças e vou. 
       Nesse vai e vem de alguns dias que se passaram, criou entre nós certa afinidade; quem sabe possa ser, por eu dar-lhe ouvidos as vossas morosas conversas moles, que no fundo, numas existem um pouco de verdade, noutras, alongados, sofridos, desabafos. Quem sabe?.
Seus pais biológicos ele não conhece. Quando ainda era um recém nascido, foi encontrado largado na frente de uma pequena pobre casa; estava dentro de uma velha caixa de sapatos, junto ao seu corpo existia um bilhete escrito a uma trêmula mão, que ele carrega consigo até hoje, e que diz assim: “Perdão meu filho, por não poder criá-lo. Tenha Deus misericórdia de mim e lhe de uma boa sorte. Sua sofrida mãe”. Uma vez criei coragem e fiz-lhe a seguinte pergunta, cínica: João! Alguém já lhe disse que você parece com um gordo caroço de feijão? Rs. 
Pra que, fui-lhe perguntar isso? Ele me deu medo! Aproximou-se, chegando mais perto de mim e segurando o seu facão sexta feira treze, aquele de partir o coco ao meio, apontou direto em meu peito e através de seu bom humor negro (Que diga se de passagem é uma das suas melhores e invejáveis características), me respondeu desse modo: Já! Várias vezes, viu! Já nem sei mais, perdi as contas... Mais eu nem ligo, tu ta me entendendo? Tentou-se até me apelidar, ta ligado? Mais não pegou. Rs. Então hoje quando alguém se dirige a minha pessoa, com tamanha gracinha, me igualando a um caroço de feijão grandão, tal como você me comparou, aqui e agora. Tu sabes o que eu digo? Eu digo bem assim ó: Pareço com um feijão sim e daí... Mas é aquele feijão, o feijão de feijoada viu! Rs, rs, rs...
          Mas eu gosto do João-gordo. Aprendi a gostar dessa figura, desconexa, desfigurada, rs: ora enaltecido, ora simples, ora introvertido. Mas que dentro de si carrega tenho certeza um grande coração amigo; sempre aberto disposto a praticar o bem; levando ao necessitado uma caridade, doações e esperança de um dia bem melhor ao seu semelhante. Como é o caso, vejo apoio e também contribuo com o ajuntamento, recolhimento e distribuição de materiais reutilizados no meio ambiente; que depois de vendidos o dinheiro arrecadado é transformado em cestas básicas e igualmente entregues a uma classe de pessoas menos abastados, carentes.
       Uma vez eu o vi lendo a Bíblia, e foi ali que tomei conhecimento de sua infeliz, desafortunada história de vida, e li o seu bilhete. Com os olhos molhados e a voz embargada ele me sussurrou: Dentro dessa minha inseparável já surrada Bíblia, trago guardado até hoje este valioso bilhete dela; sempre o leio e dele tenho maior ciúme. O meu coração tem esperança, e disso não desistirei nunca, de um dia antes que eu morra poder vê-la chegando a esta minha barraca, quero conhecê-la, saber como ela é e se vive com o meu pai; não a julgo pelo meu abandono e por nunca ter me visitado. Quero beijá-la, abraçá-la e dizer que a amo muito e dela nunca me esqueci. Quero que saiba da sua importância em minha vida e que por ela estou vivo e venci; preciso que saiba que a tenho procurado muito, e que a vejo chegando todos os dias.

          Ainda não há conheço, mas sempre me pego falando como ela fala, e ando, como ela anda...
João-gordão parece com um enorme caroço de feijão, mas tem um coração grandão...
É isso mesmo! Ele tem um coração grandão!!!...

Rs...

Falooouuu!!!...







                                                       
                        Ao lado do "Pai"

09 março, 2015

Cadê você formigão, não sabe que és pó?


A Bíblia, em 
Provérbios 
13:16, diz assim: 
"Todo prudente 
procede com 
conhecimento,
mas o insensato
espraia a sua 
loucura".

            Seu inimigo entrou com uma seqüência de tudo o que tinha direito: “Hook”, “Upper”, “Jab”, “Cruzado” e “Direto”.  

           Se você for lá pelas bandas do sul do norte de onde nasci e perguntar: quem conhece a história do Gerson-formigão? Até hoje todos dirão a mesma coisa: nós conhecemos! Depois de ouvir e conhecer o caso, você dirá: sujeito idiota esse, em sã consciência o que ele disse não se diz... Contra a força não há resistência!... Passou da conta, assim seria dar murros em ponta de faca.
           Nascido de uma família simples e humilde, cresceu sem nunca sugar o leite materno. Sua mãe não tivera leite para amamentar o guloso filho, esfomeado que era, coube-lhe então, o recurso do leite de cabra. Que assim se fez, e assim se foi até que o menino cresceu forte como um touro. Ou seria aqui, forte como um bode?... Rs.
           Mamando feito um bodinho Gerson cresceu forte e sadio. Passando então a domar cavalos bravos e outros bichos brutos arrastando-os somente pelas orelhas. Os gatos, todos tinham medo dele e só de vê-lo de longe miavam fino. Com ele os cães rosnavam tímido. Rasgava coco nos dentes, partia lenha com as próprias mãos, matava porco na cabeçada.
          Formigão era um abusado e temido por todos os outros jovens de sua idade. De encrenca era o que mais gostava e não perdia se quer uma briga. Barrado num circo por falta de ingresso; botou fogo na lona acabando com o show. Quem assistiu esta cena conclui: era só gente gritando e pulando arquibancada a baixo, enquanto ele sentado lá fora, ria...
           Sua fama bruta corria por toda a região. Movido por essa notoriedade insólita, um dia apareceu na cidade um influente empresário no ramo do boxe, veio convencer o Gerson para o tal esporte.
        Formigão tornou-se um imbatível. Seu sparing quebrou ao meio. Por toda a redondeza já não havia mais um oponente que lhe encarasse. Consagrou-se esperança e orgulho da cidade.
          Propagandas em seu nome não faltava:
     "Trator formigão", indispensável no trato de suas terras. 
        Contra a gripe, resfriado e, rouquidão; tome: "Xarope formigão". Rs.
     Seu empresário contratou uma grande luta fora. Ganhando essa se consagraria um fenômeno mundial, do boxe. Acertados todos os preparativos, para sua viagem, viajou. Lá foi o Gerson para lugares grandes em busca de um título internacional.
      No dia marcado para a grande luta onde Gerson-formigão, se consagraria um fenômeno global do boxe. Sua cidade era só alegria e muita expectativa. Quanto entusiasmo, quanta ilusão! O comércio fechou. No centro houve àquela festança com direito a bailarinas e carros alegóricos, expondo grandes bonecos, feitos a sua imagem a desfilar, anunciando por todas as ruas, fortes alto falantes o nome de seu ilustre, filho...
O prefeito? Rs... O prefeito dado a altas propagandas caras, investiu forte em outdoors espalhados pela cidade toda, aproveitando aí a rara oportunidade de elevação do seu próprio nome; e mais! Decretando arbitrariamente nesse dia, um feriado municipal... O padre? O seu vigário não poderia estar de fora de um evento como esse. Então convocou os fiéis para uma benção toda especial na praça local. Distribuindo santinhos, impresso no verso a cara tosca do formigão. E o povo? O povo! Rs... Todos simples mortais!... Oras! Só, Aclamava. Viva! Viva! O mundo é pequeno para ti. Lute e vença! E se nunca mais voltares, saberemos... Só leve por onde for o lugar de onde saístes, viva! Viva!
         Nos instantes antecedentes a sua subida no ringue, uma repórter local o entrevistou, e botando-lhe o microfone em sua cara larga, perguntou: Gerson-fomigão, o seu oponente é conhecido como um grande quebra ossos. Você já orou a Deus, pedindo proteção?...
          Ele encarou a moça, encarou a televisão, ajeitou o microfone e disparou: Se Deus me proteger será covardia e se Ele for sábio e ajuizado não subirá no ringue comigo, do contrário, não perdoarei e, se Ele estiver lá, coitado Dele, porque até Ele, hoje eu irei esmurrar e bate-lo muito até jogá-lo, desvalido no chão!
         Que louco!
       A Bíblia lá em Provérbios 13:16, diz assim: "Todo prudente procede com conhecimento, mas o insensato espraia a sua loucura".
       Novamente a Bíblia no mesmo livro de Provérbios 26:10, nos alerta: "O Poderoso, que formou todas as coisas, paga ao tolo, e recompensa ao transgressor".
      Dizem que sua luta foi um fiasco, não ultrapassou quinze segundos. Logo na entrada seu opositor desferiu-lhe um ligeiro “Jab”, entrando na seqüência com um violento “Cruzado” de esquerda, na lateral esquerda de sua cabeça que o deixou tonto até hoje. Sem dó nem piedade seu rival emplacou-lhe um “Upper” de direita, entrando brutalmente debaixo para cima, deslocando imediatamente seu maxilar; deixando-o de boca torta... Dizem que até hoje ele não consegue apagar a vela... Rs...
      Pra arrematar e enfim manda-lo definitivamente pra lona, seu inimigo entrou com uma seqüência de tudo o que tinha direito: “Hook”, “Upper”, “Jab”, “Cruzado” e “Direto”.
       Caído babando e estrebuchando largado no chão como um cão, dizem: que ele pedia leitinho... Rs. De cabra. Rs...
       Cadê você formigão, não sabe que és pó? Já acordou do “Cruzado”? E o “Upper”, consegue apagar a vela?

Rs.

Faloouuu!!!

 
 
 
 


                                                                              Ao lado do "Pai"