08 março, 2014

O episódio do trágico fim, do embelezador de defuntos.











O Sr. Francisco morreu...
Mandei para o seu velório uma coroa
adornada com as mais lindas flores.


              Sr.Francisco viveu: setenta e nove anos.
             O Sr. Francisco morreu...
            Conhecer, eu não o conhecia e nem dele era conhecido, mas só de ouvir falar de sua pessoa, eu, já o gostava muito... Foi casado há sessenta anos com a mesma mulher, pai de seis filhos, sendo: três homens e três mulheres. O mais novo dos homens é hoje muito considerado meu, sendo sócio, e um inseparável parceiro de todas as horas. Segundo informes: o Sr.Francisco viveu: setenta e nove anos, vindo a falecer na tarde de sábado passado. Então com muita dignidade, pompa e altivez mandei para o seu velório uma coroa adornada com as mais lindas flores, e uma faixa branca com bordas bordadas na cor ouro, com os seguintes dizeres: “Que sejas muito feliz, nos braços do Pai”.
            Para abordar um tema destes: velório, funeral ou sepultamento; primeiro temos de observar se os ouvintes estão dispostos a nos ouvir e discorrer em tal esdrúxulo, indelicado assunto. Outro detalhe também a ser reparado é o ambiente: imagine evocar tal assunto num quarto de um doente... Um fator criterioso também a ser considerado é o que se faz no momento da abordagem, se, por exemplo: o seu interlocutor estiver lanchando ou se preparando para comer algo; é indicado que nem se toque no assunto. Tamanho será o desconforto, do nojo evocado por ele...

Nesse momento, quis trazer e trouxe a minha branda, inquietante vasta memorável memória, o episódio do trágico fim, do: “Embelezador de defuntos”. Um sujeito de todos bem conhecido, lá na distante alta vegetação verde, e populosa terra no sul do Rio grande do Sul, onde nasci e vivi os dias de minha juventude; Quero dizer que: enquanto todos nós, jovens de nossa pouca idade, vivíamos: a estudar, namorar e ir pro cinema. O embelezador de defuntos tinha o seu caso predileto, e esse era nada mais, nada menos que fazer visitas a quem estaria na tábua da beira da beirada, ou com um pé na cova, se assim melhor ditado preferir, ou ainda: a quem já estivesse de paletó abotoado, na posição horizontal sendo velado...
              Diziam os mais debochados; que o embelezador de defuntos, gostava mesmo era de ser o primeiro a chegar ao local do morto, não se importando nem mesmo com o desfavorável cheiro, nem com o estado avançado de alta putrefação em que já se encontrava o falecido. E aí reforçam os debochados, zombando que: quanto mais fedido e feio se encontrasse o cadáver, aí ele mais se dava bem... Pois com muito capricho, ali mesmo abria sua mala e sem cerimônia alguma, mas com muita destreza e desenvoltura fazia uso de seu orgulhoso kit (Um conjunto de utensílios práticos na arte), de quem lançava a mão a preparar o cadáver, assim como: banhar, vestir, maquiar e enfeitar o defunto no caixão. Deixando o falecido, um brinco. Sem nunca se esquecer da foto... Exibindo-a mais tarde em seu álbum...
              Dando continuidade ao seu ofício macabro. o embelezador de defuntos prosseguia e progredia, sempre aprimorando e inovando cada vez mais o seu próprio cargo a ponto de todo morto na cidade e cidades próximas, vizinha, não ser sepultado sem antes passar por suas hábeis mãos. Contavam, lembro-me muito bem disso, de haver mais de um presunto a ser enterrado no mesmo dia; o segundo a ser sepultado com algumas horas de atraso, já cheirava mal. Coisa essa que para o embelezador de defuntos não seguinificava problema algum. Sempre trazia consigo, em seu kit particular: frascos defumadores com aromas e aromatizantes de odores diferentes ao do cheiro desagradável e insuportável do mortão. Sendo estes de: Maçã, morango, uva, café, chocolate...
Mas houve uma crise na cidade e nas cidades vizinhas também. Os bons tempos das vacas gordas se foram e agora era o reinado das vacas magras. Rs. Numa total abstinência, ninguém mais morria nas cidades e nem queriam saber de morrer, o anjo da morte não mais passava por lá e já havia um bom tempo: dias, semanas, meses, anos...
Vendo as suas ferramentas a enferrujarem, lá no canto paradas, sem uso; o embelezador de defuntos, torcia e desejava algum acidente fatal nas rodovias, e nada acontecia. Passou então: sempre de mau agouro, a visitar os velhinhos, os doentes, os cansados, os andarilhos... Foi numa destas idas e vindas pela cidade que ele descobriu o mal para o prosseguimento de sua adorável arte. Notou que ali na sua cidade e cidades vizinhas, havia se instalado, já de algum tempo, uma rede de farmácia popular, com preços bem acessíveis ao povo. Entedeu: esse era o segredo principal do cessamento de mortes... Sentindo-se traído e falido, diante da descoberta da durabilidade humana... O embelezador de defuntos, sentou e chorou. Tendo em seguida uma fatal e macabra grande idéia... Lembrou: a diferença do remédio para o veneno está no número de gotas... Tomou posse dum: elixir paregórico, e exagerou na dose...
              Dizem que no seu funeral não teve quem o banhasse, também não teve quem o maquiasse... Dizem que no seu velório não teve nada. Rs. Nem defumadores com aromas aromatizantes de: maçã, de uva, de morango, de chocolate, e nem de café... Rs... Rs... Rs...

Que fatalidade!!!... Rs...

Faloouuu!!!



 
 
 
 
 
                                                                           
                                                                                           Ao lado do "Pai"